Estadia em quilombo baiano é imersão na cultura afro-brasileira

Por Regina Rocha Pitta

 

Escola 1
Parede externa da escola das crianças da comunidade quilombola Kaonge

Oi gente, voltei! Como falei no post anterior, em nosso segundo dia na Bahia Adriana e eu chegamos ao Kaonge, uma das 14 comunidades quilombolas pertencentes ao Vale do Iguape, no município de Cachoeira (Bahia-Brasil). Muita gente pode se perguntar o motivo de ir para um quilombo. E minha resposta é: para vivenciar algo diferente, mas principalmente para conhecer parte da história do nosso país que só tinha visto nos livros.

Os quilombos foram formados por escravizados que fugiam das fazendas de engenho ou de outras áreas. Eles eram chamados de quilombolas. Mais tarde, as comunidades quilombolas passaram a abrigar descendentes de escravizados. Um bom exemplo, e que talvez vocês se lembrem de ter estudado na escola, é o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, liderado por Zumbi e cenário de muitas lutas.

A comunidade Kaonge dentre as outras é referência na preservação da cultura e tradições africanas e pela sua organização. Seus moradores mantiveram a produção do famoso azeite de dendê, desenvolveram o cultivo de ostras, praticam a apicultura e o plantio de alimentos, como o quiabo, item que não pode faltar nos pratos baianos com influência africana. E tudo tem como base a economia solidária.

As manifestações religiosas também estão presentes no dia a dia dos quilombolas. Durante os três dias que passamos lá tivemos a oportunidade de ver um pouco de cada uma dessas atividades.

Entrada kaonge 1
Tranquilidade do campo pra recarregar as energias

Passar pelo Kaonge também serviu para darmos um “break” no ritmo acelerado que vivemos. Ficar alguns dias em um lugar tranquilo, com chão de terra batido e muito verde ao redor deixa você meio fora do mundo. Dormir “ouvindo” o silêncio da noite, cheio de grilos, galinhas e latidos dos cães, respirar ar puro e não ter nada para fazer por algum tempo é muito especial. Dá para recarregar as energias observando as estrelas à noite, olhando o céu azul durante o dia, sentindo o cheiro da terra.

Ficamos instaladas em uma pousada construída recentemente para atender a demanda de visitantes. São cinco quartos e dois banheiros coletivos, tudo arrumado e limpo. A alguns passos de distância está o restaurante, com uma decoração típica e bem agradável, e mais adiante o bar. Os três estabelecimentos estão sob a proteção de Oxum, orixá do Candomblé e da Umbanda. A alimentação também é feita com muito cuidado pela Juci e pela Pina.

Juvani
Juvani Viana, griô (líder espiritual do Kaonge

Nossa programação começou logo depois do café da manhã, com Juvani Viana, griô(*) e líder espiritual do Kaonge, contando histórias sobre a formação do terreiro; os antepassados africanos e indígenas; as lutas e dificuldades enfrentadas para que pudessem estudar e criar os filhos, e sobre o que conquistaram depois de décadas de trabalho para chegarem nos dias de hoje.

E para preservar toda a história e cultura afro-brasileira, a inscrição na parede da escola diz tudo: “Nossas crianças aprendem primeiro a nossa história”.

Hoje, a comunidade é formada por 16 famílias, que vivem em casas construídas com tijolos, muitas do programa Minha Casa Minha Vida, e sua escola de ensino fundamental, grande conquista de Juvani, sua fundadora. Por meio do trabalho coletivo e da organização comunitária, criaram ações sustentáveis e até uma moeda própria, o Sururu.

O projeto de Turismo Étnico – Rota da Liberdade foi implantado em 2005 e depois veio o Festa das Ostras, que acontece em Outubro, quando são preparados pratos das culinárias afro e baiana. No trabalho diário deu para perceber que cada um tem sua função dentro da organização comunitária: guia, motorista, cozinheira, recepcionista, agricultor na plantação etc. Enfim, ninguém fica à toa, todos trabalham e colaboram.

Casa 1
Casa da comunidade Kaonge

Ah, para não ficar muito chato e longo para ler vou parar por aqui, mas logo a Michele publica outra parte do passeio. Até lá!

* DICA de como entrar em contato com a comunidade, caso vocês tenham interesse: procure pela Andreza Viana para agendar visitas, pelos telefones (05571) 99607-1452 e pelo e-mail rotadaliberdade.turismo@cecvi.org.br

(*) griô é o contador de histórias na cultura africana. É aquele (a) que mantém a memória viva e afetiva das tradições através da palavra, da oralidade.

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Crédito fotos: Regina Rocha Pitta

 

Regina
Regina

* Sobre a autora colaboradora: Regina Rocha Pitta é jornalista, fotógrafa, ceramista e artesã. Reside em Campinas (SP-Brasil), mas sempre que pode adora fazer uma malinha e embarcar em novas experiências pelo mundo afora.

 

 

4 comentários em “Estadia em quilombo baiano é imersão na cultura afro-brasileira

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