Arte & Cultura

Ney Matogrosso: um show, dois olhares

Ney 24.3.18. Regina Pitta (5)Por Michele da Costa e Regina Rocha Pitta
São 21h30, estamos entrando na casa de espetáculos, no interior de São Paulo, para assistir ao penúltimo show da turnê “Atento aos Sinais”, do Ney Matogrosso, com seus 76 anos de vida e 45 de carreira. Depois de pegar as credenciais de imprensa, seguimos “como divas” (rs) pelo tapete vermelho que nos leva à arena do show. Regina e eu, amigas, jornalistas, fãs do artista e muito mais em comum, mas com expectativas e olhares diferentes. Ela com 58 anos, eu com 44. Ela já viu outros três shows com Ney, o primeiro em 1974, eu nenhum.
Minha história com Ney começa quase vinte anos depois da dela, entre 1993-94, durante o curso de Jornalismo na PUC-Campinas, quando sou apresentada ao grupo Secos & Molhados, entre outros ícones da MPB que foram “apagados” pela música de massa dos anos 80 e 90. Na capa do 1º disco, lançado em 1973 (poucos meses antes do meu nascimento), as cabeças de Ney (vocalista), João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias aparecem dispostas em bandejas de papelão metalizado, como alimentos em uma mesa posta.
“Sangue Latino”, “O patrão nosso de cada dia”, “Mulher barriguda”, “Rosa de Hiroshima”, “Assim Assado”, entre outras composições do disco me deixam maravilhada. Ouço repetidamente, mais e mais. Me identifico de cara, amo as letras, a harmonia dos instrumentos, a qualidade e potência vocais e a imagem performática dos integrantes. O disco é uma forte crítica a padrões sociais da época, alguns ainda tão atuais, infelizmente. O grupo acabou no segundo disco, mas Ney seguiu com uma carreira rica e diversa que já soma 35 discos e 22 turnês. Nada mal, né?!
Vida corrida, responsabilidades, muito trabalho e bem pouco dinheiro.. lá se foram 24 anos e eu ainda não tinha conseguido ver sequer um show do Ney Matogrosso. Quando Regina me falou que ele viria a Jaguariúna, do ladinho de Campinas, onde moramos, pensei: “é agora!”. Além de realizar um sonho meu, pensei em como seria bacana contar essa experiência a você, leitora e leitor do Embarque40Mais, que como Regina e eu deve ter uma história com esse artista tão incrível e singular. E lá fomos nós!
Plateia dos “enta”
Ney 24.3.18. Regina Pitta (1)Do tapete vermelho para a arena, que aos poucos foi se enchendo de fãs, a maioria mulheres na faixa dos “enta”. A expectativa é imensa! São pouco mais de 23h, Ney entra no palco como uma águia em voo rasante, cantando a balada eletrizante “Rua da Passagem”, de Arnaldo Antunes e Lenine. “Todo mundo tem direito à vida e todo mundo tem direito igual!”, repete o cantor. Estou em pé na lateral direita do setor de mesas, bem próxima ao palco, mas minha vontade é ir pra frente, me sentar no carpete e ficar na cara do gol.. (e depois eu fui, acha que não.. rs).
A energia de Ney é contagiante, a plateia se agita. Música após música, ele se movimenta e dança sem parar. Um físico que aparenta não ter nem chegado aos 40 anos de idade. Suas roupas têm muito brilho, mas a luz mais potente vem dele, emana do seu corpo e da sua voz forte, firme, mas ao mesmo tempo doce. Tem até fonoaudiólogo na plateia que afirma: “a qualidade técnica vocal dele é perfeita!”. Um dos trechos mais lindos do show é quando Ney interpreta e dança lindamente o samba “Roendo as Unhas”, de Paulinho da Viola.. Demais! (Confira no vídeo abaixo)

Outra parte deliciosa é a da linda canção de Itamar Assunção “Isso não vai ficar assim”, especialmente no final, quando Ney convida a plateia a beijá-lo. “Beije-me, beije-me, beije-me! Por favor!”. Imagina? Mulherada avança! Beija nos braços, pernas e sabe-se lá onde mais.. Rsrs. A Júlia Fredo, de Botucatu, é uma delas. Ela já viu tanto show do Ney que nem sabe ao certo quantos foram. “Mais de vinte, com certeza”, diz. (Veja no vídeo dos Bastidores, no final).

Ney 24.3.18. Regina Pitta
Fãs tocam e beijam Ney Matogrosso durante o show

E o show acaba com outro samba lindo: “Ex-amor”, de Martinho da Vila. Sempre achei que a interpretação de Ney para essa música é a melhor de todas. Ir ao camarim tietar? Bem que tentamos, mas não é dessa vez. De qualquer modo, ver esse artista maravilhoso, assim, de pertinho, é incrível. Talento, sensualidade, energia e força que a gente chega sentir a tão poucos metros de distância. Simbiose pura! Para Regina, esse show do Ney foi uma “overdose de emoções”. Confira:
Regina
Ney 24.3.18. Regina Pitta (3)Assistir a esse show do Ney Matogrosso foi uma overdose de emoções. Relembrei de 44 anos atrás, quando o vi pela primeira vez no Secos & Molhados! Não acreditam? Mas é verdade, assisti a primeira apresentação do grupo em Brasília, no então Ginásio de Esportes. Minha mãe levou meus irmãos e eu para assistir a “sensação do momento”. O que eu lembro é que meu irmão caçula foi parar lá na beira do palco para ver tudo bem de perto. Bom, eu tinha por volta de 14 anos e sequer podia imaginar que em 2018 ainda veria aquele homem em plena forma, cantando, dançando e sendo ovacionado pelo público.
Ney 24.3.18. Regina Pitta (2)A Michele me pediu para falar um pouco desse intervalo. Bem, lá no início ver aqueles homens dançando com rostos pintados e um deles (Ney) só de saia de franjas dançando “O Vira” foi muito impactante, mas tudo muito divertido. Um detalhe: em plena ditadura (1974)! As crianças adoravam eles. Hoje, ver aquele mesmo homem do alto dos seus 76 anos fazer um show de mais de uma hora e encantar a plateia, de homens e mulheres, como há mais de 40 anos, é simplesmente inacreditável. São poucos os artistas que conseguem esse tipo de magnetismo.
Ney 24.3.18. Regina Pitta (6)Esse foi o quarto show que assisti de Ney Matogrosso. Em todos, ele sempre me passou um perfeccionismo e cuidado com o seu trabalho inigualáveis. Em um desses shows, saindo um pouco desses personagens performáticos e exuberantes, vi um Ney, acompanhado pelo violonista Rafael Rabello, em “À flor da pele”, mais contido, de terno, e com um repertório magnífico, mas nem um pouco menos brilhante que nos outros. Para mim, ele é um artista de múltiplas facetas, mas sempre surpreendente.

  • Fotos: Regina Rocha Pitta

 

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Regina (à esquerda) e Michele no tapete vermelho

Serviço: Regina e Michele assistiram ao show “Atento aos Sinais”, de Ney Matogrosso, no dia 24 de março de 2018, na Red Eventos, em Jaguariúna (SP-Brasil). A turnê do disco começou em 2013. O último show da turnê está previsto para 7 de abril, no Rio de Janeiro.
 

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Bj da Mi!
 
 

Autora do embarque40mais.com. Uma jornalista, do interior de São Paulo-BR, que adora conhecer lugares, culturas, ter novas experiências e contar boas histórias.

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