Romantismo e mistério em palácio de Portugal

Michele da Costa

Logo na entrada, perguntei ao guarda qual era o caminho. Ele respondeu que havia vários, mas que costumava recomendar o da esquerda, beirando o muro, pois considerava o mais bonito. Embora estivesse frio e aquele caminho fosse de mata mais fechada e úmida, acatei a sugestão sem pensar duas vezes. Segui sozinha, era dia de semana, por isso havia poucos visitantes no parque. Logo encontrei uma bela cascata e lago, onde alguns raios de sol conseguiam penetrar. O som da água, misturado ao canto de pássaros, era relaxante e encantador.

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Vista de um dos pontos mais altos do Parque de Monserrate (Sintra-PT)

Depois de alguns minutos, segui adiante pelo caminho em declive zigue-zague, até encontrar uma construção em ruínas, muito parecida com uma capela. O local era especialmente interessante porque as ruínas se misturavam à vegetação de modo a parecerem um ser único. Da trilha em que estava não havia rampa ou degraus, o que me passou a impressão de algo ainda mais misterioso, talvez até proibido.

P_20171109_114622_vHDR_OnNovamente, quase que por impulso, pulei a mureta e caminhei até as ruínas. Então estava diante de um lugar realmente incrível, diferente, mítico. A “música” tocada harmonicamente pelos pássaros e insetos do parque ampliava ainda mais meus sentidos. Fiz várias fotos, de diferentes ângulos. Me chamou atenção especialmente um conjunto de portas que levavam a uma pequena gruta, ao fundo das ruínas. Achei bonito, mas não tive vontade de entrar.

P_20171109_120454_vHDR_OnFoi quando comecei a sentir minha cabeça bem aquecida, como se eu estivesse com uma touca térmica, daquelas antigas usadas para fazer hidratação dos cabelos, sabe? Pensei que estivesse imaginando aquilo, sugestionada, e tentei ignorar, mas a temperatura aumentou ainda mais. Então resolvi sair dali e caminhei a passos rápidos em direção à trilha de onde havia desviado. Conforme ia me afastando a sensação era de que a temperatura diminuía, até que voltou ao normal.

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Gruta dentro das falsas ruínas da capela (ao fundo), que abrigou o Sarcófago de Arnth Vipinana

Não foi uma sensação ruim, mas muito estranha, nunca tinha sentido algo parecido. Continuei o passeio normalmente pelo parque e palácio, o que levou mais de duas horas. Quando saí, passando pelas *Quimeras que guardam o portão de entrada, e me sentei para aguardar o ônibus do lado oposto da rua, senti muito frio. Ao colocar as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las, encontrei o folheto que tinha recebido na entrada do parque.

No impresso, as principais atrações e pontos de interesse estavam destacados no mapa. Foi quando vi que aquele local era uma falsa ruína, construída por um dos proprietários, em substituição à capela original, de N. Sra. de Monserrate, que foi derrubada para dar lugar ao Palácio. Também que as ruínas abrigaram um de três sarcófagos etruscos que ornamentaram o jardim por mais de cem anos, antes de serem enviados ao museu arqueológico da cidade. Inevitavelmente, pensei na experiência misteriosa que havia tido momentos antes.

Os “Sarcófagos de Cook”

A experiência descrita acima foi durante passeio que fiz, em Novembro de 2017, no Parque e Palácio de Monserrate, na serra de Sintra, considerado um dos pontos turísticos mais românticos de Portugal. Mais recentemente, quando decidi contar essa história aqui no blog, comecei a pesquisar sobre os tais “sarcófagos de Francis Cook”, como são chamados, já que Cook foi o dono da propriedade que adquiriu essas obras de arte. A pesquisa foi tão rica e envolvente que gastei algumas boas horas com ela, mas vou tentar resumir.

Sarcófago etrusco Monserratte
Sarcófago etrusco de Arnth Vipinana, dos séculos III e IV a.C. (reprodução obs.2)

Pra começar, o que é um sarcófago? Sinônimo de tumba ou túmulo, construído com uma variedade de pedra que povos antigos acreditavam poder consumir as carnes dos cadáveres. E os etruscos, quem eram mesmo? Um povo que viveu na antiga Etrúria, na Península Itálica, onde hoje está a região da Toscana, entre 1200 e 700 a.C. (antes de Cristo).

P_20171109_134838_vHDR_OnMuitas informações sobre essa população foram descobertas a partir de sarcófagos encontrados no norte de Roma (Itália), a exemplo dos sarcófagos de Cook. Entre essas descobertas, o fato de terem sido uma sociedade aristocrática, politeísta (cultuavam vários deuses, com forte influência da mitologia grega), as mulheres eram emancipadas e eles tinham grande habilidade na produção de objetos de metais. A escrita etrusca ainda não foi desvendada, mas pelo que vi o alfabeto deles é bem similar ao nosso, só que as letras parecem ser vistas por meio de um espelho.

Eis que os sarcófagos de Cook chegaram a Sintra em 1867, para ornamentar os jardins da Quinta de Monserrate. O que estava na capela é o Sarcófago de Arnth Vipinana, datado entre os séculos IV e III a.C, em pedra vulcânica, basicamente uma caixa retangular, esculpida na frente com várias figuras humanas e a escultura de um homem, sobre a tampa, deitado de lado.

Museu

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Vista lateral do Palácio de Monserrate (Sintra- PT)

Desde a década de 1980 estão no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, na Vila de Sintra. São os únicos sarcófagos existentes em Portugal, segundo o Museu. Mas porque Cook comprou os sarcófagos? Ele era um rico industrial inglês, que recebeu o título português de Visconde de Monserrate. Adquiriu a propriedade em 1863 e fez uma ampla reforma do palácio, que estava abandonado, e o novo projeto paisagístico dos jardins, trazendo espécies de plantas de vários lugares do mundo.

Cook era um grande colecionador de arte, excêntrico e exibicionista para alguns. O Parque é considerado uma das mais belas criações do paisagismo romântico em Portugal e objetos fúnebres davam um toque misterioso, típico do Romantismo. O projeto original do palácio (1789) é em estilo neogótico, mas a reforma promovida por Cook (1864) e decoração interna mantidas até hoje têm influências medievais e orientais. O Parque e Palácio foram adquiridos pelo Estado em 1949 e, desde 1995, como parte da serra de Sintra, classificados pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

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Biblioteca do Palácio de Monserrate, onde foi aprovada a lei ambiental portuguesa, em 2009

O interior do Palácio também é diferente e muito bonito. Os locais que me despertaram maior interesse foram a Sala de Música, em forma circular, que mantém um piano Steinway, de 1928, utilizado pelo compositor José Vianna da Motta (1868- 1948) em vários recitais (foto destacada); e a Biblioteca, onde foi aprovada pelo Conselho de Ministros a legislação ambiental portuguesa, em 5 de Junho de 2009. Com ou sem possíveis experiências misteriosas, como a que tive, o Parque e Palácio de Monserrate é um passeio belíssimo, que considero indispensável em roteiro pela região de Lisboa.

Michele da Costa é jornalista e autora do Embarque40Mais. As imagens deste post são todas autorais (exceto reprodução sarcófago). Saiba mais sobre a viagem dela a Portugal no post Um tempo pra mim

Planeja ir a Portugal e visitar os parques e palácios de Sintra? Então esse post pode ser muito útil: Dicas de transporte local em Lisboa

* Quimera: criatura mitológica com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente

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Bj da Mi

Obs.: 1- Agradecimento ao Parques de Sintra Monte da Lua, que viabilizou nosso acesso à Monserrate e a outros parques. 2- Com informações obtidas nos sites da Parques de Sintra Monte da Lua, do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas e no artigo Os três sarcófagos etruscos da coleção de Sir Francis Cook no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, trabalho de mestrado de Marta Ribeiro pela Universidade de Lisboa, em 2014, disponível AQUI (a foto do Sarcófago de Arnth Vipinana foi reproduzida a partir deste artigo).

 

2 comentários em “Romantismo e mistério em palácio de Portugal

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  1. Adorei sua sugestão Michele. A descrição de sua visita foi incrível! Quando visitar Portugal novamente ( se Deus quiser vou fazer isso um dia) vou incluir esse parque no meu roteiro.

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