Carolina-de-Jesus-IMS A Carolina de Jesus que não foi rebotalho em exposição gratuita

A Carolina de Jesus que não foi rebotalho em exposição gratuita

A Carolina de Jesus que não foi “todo rebotalho”, como queria ser lembrada a escritora brasileira (1914-1977), é apresentada em exposição gratuita em São Paulo. Até Janeiro de 2022.

Quando morrer| Não digam que fui todo Rebotalho| Que vivia à margem da vida| Digam que eu procurava Trabalho| E fui sempre preterida| Digam ao povo brasileiro| O meu sonho era ser escritora| Mas eu não tinha dinheiro| Para pagar uma editora

Carolina de Jesus

Pois é, a autora teve uma vida muito sofrida até alcançar sucesso com o livro Quarto de Despejo (1960) e muitas vezes foi retratada sob o estigma da ‘escritora negra favelada’. A proposta da mostra parte de trechos de seus manuscritos originais que foram apagados das narrativas oficiais, “majoritariamente por autores homens e brancos”. A afirmação é da equipe de curadoria, ao comentar sobre a importância do livro Um Brasil para os brasileiros.

Assim como parte do conteúdo, o título original foi alterado para Diário de Bitita (edição em Português, de 1986). Por isso, o nome da exposição no Instituto Moreira Salles (IMS) é Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros. O objetivo, em justa homenagem, é mostrar ao público a voz e a escrita originais de Carolina.

Mostra resulta de ampla pesquisa e conteúdo inédito

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“Um Brasil para os Brasileiros” [trecho], caderno manuscrito de Carolina de Jesus. Acervo Instituto Moreira Salles

Portanto, a exposição percorre a produção literária da autora, abordando história, recepção, amplitude e complexidade da sua obra. Isso porque grande parte dessa produção está em cadernos manuscritos ainda nem publicados.

Quarto de despejo, em que relata seu cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo, foi seu livro de maior sucesso. Mas a autora também lançou em vida Casa de alvenaria (1961), Pedaços da fome (título original era A felizarda– 1963) e Provérbios (1963).

Depois foram publicados Diário de Bitita (1986) e outras edições independentes reunindo textos seus. Além disso, Carolina escreveu poemas, crônicas, peças de teatro e letras de música, a maioria também inédita.

Narrativa visual mostra uma Carolina altiva

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Carolina Maria de Jesus, em 1960. Crédito Acervo UH/ Folhapress

A narrativa visual da exposição sobre Carolina de Jesus no IMS não poderia ser diferente. Uma vez que os visitantes também verão fotografias pouco conhecidas, com Carolina sorridente, elegante e altiva. Isso porque estas imagens mostram uma artista diferente daquela normalmente retratada pela imprensa à época, humilde e cabisbaixa.

Então um bom exemplo é a foto dela no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), momentos antes de embarcar para o Uruguai. Essa viagem foi em 1961, para o lançamento de Quarto de despejo (foto destacada).

Ao mesmo tempo, obras de outros artistas que dialogam com Carolina também integram a exposição. À convite da equipe de curadoria, o artista Antonio Obá criou um novo retrato de Carolina, o Meada, um dos destaques da mostra.

A seleção tem nomes que viveram no mesmo período da autora, como Heitor dos Prazeres (1898-1966) e Maria Auxiliadora (1935-1974). Mas também inclui contemporâneos, como Ayrson Heráclito, Dalton Paula, Eustáquio Neves, Paulo Nazareth, Rosana Paulino, Silvana Mendes, Sonia Gomes e o coletivo Encruzilhada.

Reflexões sobre maternidade e outros talentos da artista

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Disco Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus. Da Coleção José Ramos Tinhorão/ Acervo IMS

A maternidade é outro assunto recorrente na obra de Carolina, que foi mãe solo de três filhos, trazendo reflexões que reverberam nas discussões atuais. Por isso, a mostra traz um núcleo dedicado ao tema, com imagens da autora com os filhos, incluindo três fotos raras do seu arquivo pessoal.

Mas o que muita gente não sabe é que Carolina de Jesus também compunha canções, cantava, tocava violão e costurava. Assim, Quarto de despejo também foi o nome de um LP, lançado em 1961, com doze faixas de sua autoria. O disco raro poderá ser ouvido pelos visitantes.

Você também pode gostar de ver conteúdo do IMS sobre a vida e obra de Carlos Drummond de Andrade.

Carolina de Jesus: “ícone de um Brasil insubmisso”

Além disso, vídeos e trabalhos presentes na exposição reforçam o impacto da obra da artista na atualidade. “Carolina tornou-se um símbolo de resistência para os movimentos negros contemporâneos. Referência para vertentes do feminismo negro, para a literatura de autoria negra e periférica. Um ícone de um Brasil insubmisso, que colocou em cheque um projeto de modernidade excludente, que era moldado quando a autora lançou seu primeiro livro”, avalia a curadoria.

Mas a exposição também contará com atividades paralelas, como uma mostra de cinema e um catálogo com textos críticos. A curadoria da mostra Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros é do antropólogo Hélio Menezes e da historiadora Raquel Barreto.

A assistência de curadoria é da historiadora da arte Luciara Ribeiro e o trabalho de pesquisa da crítica literária e doutora em letras Fernanda Miranda. Além disso, a produção da mostra contou com a participação de um Conselho Consultivo, composto por doze mulheres com atuações destacadas e reconhecidas em diversas áreas.

Alguns pensamentos de Carolina Maria de Jesus

Eu odiava o senhor José Afonso por dizer que o vovô seria o Sócrates Africano, se soubesse ler. Mas não podia xingá-lo, porque ele era o presidente de Sacramento. E os que xingavam o presidente iam presos e apanhavam. Pensava: se o vovô fosse branco e rico, o senhor José Afonso havia de considerá-lo. Mas o vovô era preto e o preto não era o dono do mundo. […] Fiquei feliz em saber que o meu avô morreu ilibado. O seu nome, Benedito José da Silva. E tenho orgulho de acrescentar que ele foi o Sócrates analfabeto. Era impressionante a sapiência daquele homem. 
(Trecho proveniente do manuscrito Um Brasil para os brasileiros, sob a guarda do IMS.) 

Dia 24 de fevereiro de 1941 saiu o meu retrato na Folha da Manhã. Na foto estava eu e o sr. Willy Aureli. Eu estava sorrindo e ele me olhando. O que achei interessante é que as pessoas que se dirigiam a mim com intimidades passaram a tratar-me de Dona Carolina Maria de Jesus.
(Trecho proveniente do manuscrito Um Brasil para os brasileiros, sob a guarda do IMS.) 

“Eu gosto de ser preta”

Eu não tenho complexo de cor, eu gosto de ser preta. Se Deus enviasse-me branca creio que ficava revoltada. Quando leio nos jornais ‘Carolina Maria de Jesus, a preta da favela’, fico contente. Favela é lugar dos pobres, é a manjedoura da atualidade. Cristo nasceu numa manjedoura, se renascer será numa favela. O recanto dos que não podem acompanhar o custo de vida.
(Trecho proveniente de manuscritos do Arquivo Público de Sacramento.) 

O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.
(Trecho proveniente do livro Quarto de despejo.)

Quando eu voltava parei em uma banca de jornais. Vi um homem xingando os policiais de burros, que eles prevalecem. No Clichê, um policial espancava um velho. O jornal dizia que era um policial do Dops.
(Trecho proveniente do livro Meu estranho diário.) 

Fiquei pensando na vida horrorosa do povo do Brasil. E eu também estou no meio desse povo.
(Trecho proveniente do livro Meu estranho diário.)

A vida não é para os covardes!
(Trecho proveniente do livro Provérbios.)

Onde, quando e como ver a exposição sobre Carolina de Jesus

EXPOSIÇÃO: Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros
QUANDO: De 18 de setembro de 2021 (abertura) a 30 de janeiro de 2022. De terça a domingo e feriados (exceto às segundas), das 12h às 18h. Os horários podem sofrer alterações devido à pandemia, consulte antes de ir.
ONDE: No IMS Paulista, à Avenida Paulista, 2424, São Paulo (SP).
COMO: A entrada é gratuita, mas é necessário agendar antes no site.
MAIS INFORMAÇÕES: (11) 2842-9120.
PROTOCOLOS DE SEGURANÇA: O IMS Paulista está funcionando com capacidade reduzida. É obrigatório o uso de máscaras, manter o distanciamento entre as pessoas, entre outras medidas.

Referências: Texto redigido pela jornalista Michele da Costa, com informações e imagens do IMS. Trecho de Carolina de Jesus, destacado no início do texto, integra manuscritos do Arquivo Público de Sacramento. Foto destacada: Carolina Maria de Jesus, em Campinas (SP), em 13/12/1961, crédito Arquivo/ Estadão Conteúdo.

Michele da Costa

A jornalista Michele da Costa é autora e editora responsável pelo EMBARQUE40MAIS.COM. Do interior de São Paulo, adora conhecer lugares, culturas e contar boas histórias. Com mais de vinte anos de experiência, encontrou no Turismo uma nova fonte de conhecimento e inspiração.

2 Comments

  1. A história de dessa mulher, negra, pobre e, finalmente, escritora é uma lição de vida. Lutou como muitos, mas se sobressaiu ao traçar seu caminho ainda criança.

    1. Oi Regina! Bem-vinda de volta! Verdade. Como Carolina de Jesus mesma disse, “A vida não é para os covardes!”. Bjs

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