Palácio e Parque de Monserrate em Sintra: romantismo e história

Saiba como é a visita ao Palácio e Parque de Monserrate, em Sintra, Portugal. História, belezas e mistérios! Veja preços em 2020-2021, como e quando visitar. Informações atualizadas em Junho de 2020.

Logo na entrada, perguntei ao guarda qual era o caminho. Ele respondeu que havia vários, mas que costumava recomendar o da esquerda, beirando o muro, pois considerava o mais bonito. Embora estivesse frio e aquele caminho fosse de mata mais fechada e úmida, acatei a sugestão sem pensar duas vezes.

Segui sozinha, era dia de semana, por isso havia poucos visitantes no parque. Então, encontrei uma bela cascata e lago, onde alguns raios de sol conseguiam penetrar. O som da água, misturado ao canto de pássaros, era relaxante e encantador.

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Vista de um dos pontos mais altos do Parque de Monserrate, em Sintra (Portugal)

Assim, depois de alguns minutos, segui adiante pelo caminho em declive zigue-zague, até encontrar uma construção em ruínas, muito parecida com uma capela. O local era especialmente interessante porque as ruínas se misturavam à vegetação de modo a parecerem um ser único.

Da trilha em que estava não havia rampa ou degraus, o que me passou a impressão de algo ainda mais misterioso, talvez até proibido. Novamente, quase que por impulso, pulei a mureta e caminhei até as ruínas. Enfim, estava diante de algo realmente diferente.

Capela em ruínas no Parque de Monserrate, em Sintra

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Ruínas de capela no Parque de Monserrate, em Sintra

A “música” tocada harmonicamente pelos pássaros e insetos do parque ampliava ainda mais meus sentidos. Fiz várias fotos, de diferentes ângulos. Mas, me chamou atenção especialmente um conjunto de portas que levavam a uma pequena gruta, ao fundo das ruínas. Achei bonito, mas não tive vontade de entrar.

Foi quando comecei a sentir minha cabeça bem aquecida, como se eu estivesse com uma touca térmica, daquelas antigas usadas para fazer hidratação dos cabelos, sabe? Pensei que estivesse imaginando aquilo, sugestionada, e tentei ignorar, mas a temperatura aumentou ainda mais.

Então resolvi sair dali e caminhei a passos rápidos em direção à trilha de onde havia desviado. Conforme ia me afastando a sensação era de que a temperatura diminuía, até que voltou ao normal.

Não foi uma sensação ruim, mas muito estranha, nunca tinha sentido algo parecido. Assim, continuei o passeio normalmente pelo parque e palácio, o que levou mais de duas horas. Só que essa história não acaba aqui.

História do Parque de Monserrate em Sintra

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Gruta dentro das ruínas da capela (ao fundo), que abrigou o Sarcófago

Pois quando saí do Parque, passando pelas *quimeras que guardam o portão de entrada, e me sentei para aguardar o ônibus do lado oposto da rua, senti muito frio. Só que, ao colocar as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las, encontrei o folheto que tinha recebido na entrada do parque.

Então, eis que no impresso as principais atrações e pontos de interesse estavam destacados no mapa. Assim, vi que aquele local era uma falsa ruína, construída por um dos proprietários, em substituição à capela original, de Nossa Sra. de Monserrate, que foi derrubada para dar lugar ao Palácio.

Contudo, também li no folheto que as ruínas abrigaram um de três sarcófagos etruscos que ornamentaram o jardim por mais de cem anos, antes de serem enviados ao museu arqueológico da cidade. Inevitavelmente, pensei na experiência misteriosa que havia tido momentos antes.

Parque de Monserrate abrigou os “Sarcófagos de Cook”

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Sarcófago etrusco de Arnth Vipinana no Parque de Monserrate (reprodução)

Essa experiência descrita acima foi durante passeio que fiz, em Novembro de 2017, no Palácio e Parque de Monserrate, na serra de Sintra, considerado um dos pontos turísticos mais românticos de Portugal.

Então, mais recentemente, quando decidi contar essa história aqui no blog, comecei a pesquisar sobre os tais “sarcófagos de Francis Cook”. Assim eles são chamados porque Cook foi o dono da propriedade que adquiriu essas obras de arte.

A pesquisa foi tão rica e envolvente que gastei algumas boas horas com ela, mas vou tentar resumir. Então, para começar, o que é um sarcófago? É um tipo de tumba ou túmulo, só que construído com uma variedade de pedra que povos antigos acreditavam poder consumir as carnes dos cadáveres.

Etruscos viveram na Península Itálica

E os etruscos, quem eram mesmo? Eles eram um povo que viveu na antiga Etrúria, na Península Itálica, onde hoje está a região da Toscana, entre 1200 e 700 a.C. (antes de Cristo). Muitas informações sobre essa população foram descobertas a partir de sarcófagos encontrados no norte de Roma (Itália), a exemplo dos sarcófagos de Cook.

Entre essas descobertas, o fato de terem sido uma sociedade aristocrática, politeísta (cultuavam vários deuses, com forte influência da mitologia grega), as mulheres eram emancipadas e eles tinham grande habilidade na produção de objetos de metais.

A escrita etrusca ainda não foi desvendada, mas achei o alfabeto deles bem similar ao nosso, só que as letras parecem ser vistas por meio de um espelho. Então, voltando ao assunto, eis que os sarcófagos de Cook chegaram a Sintra em 1867, para ornamentar os jardins da então Quinta de Monserrate.

O que estava na capela é o Sarcófago de Arnth Vipinana, datado entre os séculos IV e III a.C, em pedra vulcânica (foto). A obra é basicamente uma caixa retangular, esculpida na frente com várias figuras humanas e a escultura de um homem, sobre a tampa, deitado de lado.

Por fim, desde a década de 1980 os sarcófagos estão no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, na Vila de Sintra. E são os únicos sarcófagos existentes em Portugal, segundo o Museu. Mas por que Cook comprou os sarcófagos?

Paisagismo romântico inspirou Parque de Monserrate em Sintra

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Vista a partir do Parque de Monserrate, em Sintra

Francis Cook era um rico industrial inglês, que recebeu o título português de Visconde de Monserrate. Adquiriu a propriedade em 1863 e fez uma ampla reforma do palácio, que estava abandonado. O novo projeto paisagístico dos jardins incluiu espécies de plantas de vários lugares do mundo.

Cook era um grande colecionador de arte, excêntrico e exibicionista para alguns. O Palácio e o Parque são considerados das mais belas criações da arquitetura e paisagismo românticos em Portugal e objetos fúnebres davam um toque misterioso, típico do Romantismo, o que explica os sarcófagos.

Palácio de Monserrate mistura estilos neogótico, oriental e medieval

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O projeto original do palácio (1789) é em estilo neogótico, mas a reforma promovida por Cook (1864) e decoração interna mantidas até hoje têm influências orientais e do período medieval. Essa mistura de estilos é típica do ecletismo do século XIX.

O Palácio e Parque de Monserrate foram adquiridos pelo Estado em 1949 e, desde 1995, como parte da serra de Sintra, classificados pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. O interior do Palácio também é diferente e muito bonito.

Mas os locais que me despertaram maior interesse foram a Sala de Música e a Biblioteca. Na Sala de Música, em forma circular, encontramos um piano Steinway, de 1928, utilizado pelo compositor José Vianna da Motta (1868- 1948) em vários recitais (foto destacada no início da página).

Lei ambiental foi aprovada no Palácio de Monserrate

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Biblioteca do Palácio de Monserrate, onde foi aprovada a lei ambiental portuguesa

Um importante fato da história de Portugal ocorreu no Palácio de Monserrate, mais precisamente na Biblioteca. Foi a aprovação da Legislação Ambiental Portuguesa pelo Conselho de Ministros, em 5 de Junho de 2009. Vale lembrar que 5 de Junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Assim, concluo que com ou sem possíveis experiências misteriosas como a que tive, o Palácio e Parque de Monserrate é um passeio belíssimo, indispensável em roteiro pela região de Lisboa. A seguir, você também pode ver um pequeno vídeo da minha visita!

Vídeo do Parque de Monserrate em Sintra

Pequeno vídeo de visita ao Parque e Palácio de Monserrate, em Sintra

Como e quando visitar o Palácio e Parque de Monserrate

Onde fica: O Palácio e Parque de Monserrate ficam na Serra de Sintra, a 4 Km do Centro Histórico da Vila de Sintra, região de Lisboa, Portugal. Coordenadas GPS
38º 47’ 30.70” N 9º 25’ 9.09” W. De carro, pode seguir via IC19 (de Lisboa), IC30 (de Mafra) ou EN9 (pela A5/Cascais).

Quando visitar: Aberto todos os dias, o Parque das 9h às 19h (último bilhete e última entrada às 18h00) e o Palácio das 9h30 às 18h30 (último bilhete 17h30).

Mas, se possível, programe sua visita ao Parque de Monserrate, em Sintra, para um dia útil da semana. Pois aos finais de semana e feriados é comum haver longas filas.

Como chegar de transporte coletivo: De Lisboa, embarque na linha de trem (comboio) chamada “Linha de Sintra”, que pode ser nas estações Oriente, Rossio ou Entrecampos.

Desembarque na Estação de Sintra, na Vila de Sintra. Bem em frente à estação você pode pegar o ônibus (autocarro) Linha 435, que te levará até a entrada do Parque de Monserrate. Confira mais detalhes em nossas dicas de transporte local em Lisboa.

Quanto custa: A entrada para visitar o Parque e o Palácio de Monserrate custa 8 Euros (inteira) e 6,50 Euros (meia: 6 a 17 anos e maiores de 65). Famílias com dois adultos e dois jovens até 17 anos pagam o total de 26 Euros. Preços com base no tarifário de 2020-2021.

O transporte dentro do Parque também está incluído no valor da entrada, ideal para quem não gosta ou tem dificuldade de caminhar.

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Referências

  • * Quimera: criatura mitológica com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente.
  • Texto e fotos de autoria da jornalista Michele da Costa, exceto a do Sarcófago de Arnth Vipinana, que foi reproduzida a partir do artigo de Marta Ribeiro: Os três sarcófagos etruscos da coleção de Sir Francis Cook no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, trabalho de mestrado pela Universidade de Lisboa, em 2014.
  • Com informações obtidas nos sites da Parques de Sintra Monte da Lua, do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas e do artigo de Marta Ribeiro.
  • A viagem de Michele a Portugal foi paga por ela, mas o acesso ao Palácio e Parque de Monserrate não foi cobrado porque foi credenciada como profissional de imprensa.

12 Comments

  1. que demais esse Palácio de Monserrate! estruturas bem trabalhadas e cheia de detalhes, assim como o seu texto! bem explicativo e poético

  2. Que lugar incrível, não conhecia! Eu quero ir a Portugal e fazer esses tipos de roteiros, o palácio é fantástico e ainda mais essa parte histórica!

    • Fico contente que tenha gostado, Flávia! Os palácios e parques de Portugal são uma ótima opção de roteiro histórico e Sintra abriga vários deles, a exemplo do Parque de Monserrate. Um abraço!

  3. Nossa que interessante, adorei saber mais sobre esse passeio. Ainda não conheço Portugal, mas este é um passeio que colocaria no roteiro.

  4. Que história! Fico emocionada de ler posts tão vividos e completos como este.

  5. Que maravilha de passeio, adoro ruínas, tantas histórias por trás delas. E você foi além, pesquisou e trouxe tudo aqui pra nós. Amei, achei o caminho bonito, faria a mesma escolha que você. Muito interessante também a sensação que teve nas ruínas. Bom pra gente pensar, né?

  6. Ema Regina Bianchi Aguiar

    13 de junho de 2018 at 14:47

    Adorei sua sugestão Michele. A descrição de sua visita foi incrível! Quando visitar Portugal novamente ( se Deus quiser vou fazer isso um dia) vou incluir esse parque no meu roteiro.

    • Michele da Costa

      13 de junho de 2018 at 17:21

      Que bacana, Ema! Vá mesmo. Aliás, Sintra merece bem uns três dias pra conhecer bem. Obrigado pela visita! Bjs

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